Dependência de terapia
- 3 de out. de 2014
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Atualizado: 13 de jun. de 2024
Algumas questões tem um tempo certo para aparecer, elas parecem ser dependentes de condições específicas. É comum ver um adolescente se questionando sobre política, justiça e o direito de um adulto de lhe tolir a liberdade, são questões que dependem de uma série de fatores que costumam estar presentes nessa idade.
Se questionar sobre a dependência da terapia, ou a dependência do terapeuta é também uma questão que tem uma série de condicionais próprias, a principal dela sendo: não ter passado por um bom processo terapêutico.
Digo um bom processo, ao invés de simplesmente um processo de terapia qualquer, por que encontramos casos onde o paciente tentou fazer um tratamento, mas não avançou e parou.
E é exatamente esse o medo de muitas pessoas que resistem à se envolver com o processo terapêutico, o de não conseguir distinguir mais se aquilo faz bem ou mal e então se prender aos caprichos de uma outra pessoa.
É compreensivel que não se queira ter a vida definida ou dirigida por alguém, ainda mais alguém em quem se confiou, e a quem se paga para lhe ajudar. Mas esse temor não é da categoria de medos facilmente racionalizáveis, ou de explicação objetiva, para entendê-lo é preciso supor que exista um perigo real de ser manipulado.
Supor que isso é uma realidade, que um paciente possa ser manipulado pelo terapeuta é a soma de duas condições, a de que exista alguma perversão do profissional em enganar o cliente, prendendo ele num processo que não evolui, e a inocência do paciente, de não perceber que aquele processo estaria sendo noscivo e manipulador.
Não posso negar que existam profissionais perversos, e que para um leigo conseguir reconhecer qualidade numa área tão subjetiva possa ser difícil, mas quando o resultado é uma vida psiquica melhor, ninguém mais equipado do que o paciente para dizer se ele se sente melhor ou não.
Então, se alguém que nunca passou por um processo terapeutico sofre do medo de ser manipulado é porque no fundo ele se sente inepto a diferenciar um processo benéfico de um maléfico e precisaria de alguma garantia externa para prevenir que isso aconteça. Isso costuma ser um indicativo de que ele tem à disposição para repetir alguma posição, seja em ação ou pensamento, mesmo sem saber o seu significado real.
Indo além, essa pessoa não só teme não diferenciar ambiguidades,mas teme ser contaminada pela opinião dos outros, como se em algum momento ela não fosse mais capaz de diferenciar a opinião dela do que os outros dizem para ela. Sem se dar conta a pessoa se sente não só repetindo, mas também sugestionável.
Ironicamente essas percepções fazem parte de uma série de insights que se costuma adquirir num processo analítico: “eu repito coisas que eu não sei por que eu faço”, “o meu envolvimento com os outros me influencia de uma maneira que eu não entendo”.
Um bom processo terapêutico de orientação psicanalítica, que podemos chamar de análise, não irá se esquivar de reconhecer essas repetições e compreender o meio em que elas se reproduzem. O paciente, na conversa reflexiva com o analista, acaba por conseguir identificar e entender sozinho, e, não por coincidência, acaba descobrindo um jeito próprio de se conhecer.
Assim a falácia de que a pessoa irá se moldar de acordo com a opinião do analista não só é errada, mas ironicamente oposta ao resultado de um bom trabalho.
A mistura que se costuma fazer entre a sua opinião e a do outro se justifica pelas relações que a pessoa monta sem perceber, e que repete sem saber a cada nova relação, criando aquela sensação antiga de repetição.
Uma análise resolvida termina pela separação, não só de pessoas, mas de opiniões, agora num mundo onde se possa compartilhar pontos de vista sem se contaminar com o outro.
Lucas Nogueira







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